Medo de amar
Sobre o que acontece quando um gesto simples, como segurar uma mão, carrega o peso de tudo o que aprendemos a temer.
Publicado em 20 de outubro de 2026
A mão dele estava ali, a dez centímetros da minha, em cima da mesa do bar. Dez centímetros. Eu já tinha atravessado a cidade inteira pra chegar naquela mesa, mas os últimos dez centímetros pareciam mais longos.
Não era vergonha. Era contabilidade. Quem está olhando. Quem pode comentar. Que rua a gente pega na volta. Se o motorista vai ver pelo retrovisor. A gente aprende a fazer essa conta tão cedo que nem percebe mais que está fazendo.
O que a gente aprende a temer
Ninguém me ensinou a ter medo de segurar uma mão. Ninguém precisou. Bastou crescer vendo quem apanhava por isso, quem virava piada, quem sumia das reuniões de família. O medo não é meu. Ele foi entregue, de mão em mão, como uma herança que ninguém pediu.
Quando eu finalmente segurei, não aconteceu nada. Nenhum olhar, nenhum comentário. Só a mão dele, quente, e a descoberta de que os dez centímetros eram meus e eu podia atravessar quando quisesse.
Isso não resolve a conta. A conta continua existindo porque a violência continua existindo. Mas naquela noite ela saiu do centro da mesa. E a gente ficou.